Fernando Jaeger

O Designer

Móveis não são necessariamente para sempre, mas são para todos os dias. Durante muitos anos, eles nos acolhem e nos dão conforto, guardam nosso sono e nossas memórias, deixam nossa casa com a nossa cara. Alguns passam de geração para geração, outros se vão por necessidade ou opção. Uns dizem “essa poltrona era da minha avó”, outros falam “vou mudar de casa e resolvi trocar tudo”. De um jeito ou de outro, eles têm de ser confortáveis e resistentes – sempre. Ter um bom projeto, um belo desenho e serem feitos com a melhor matéria-prima, o que implica em várias coisas, principalmente para quem trabalha com madeira.

Sim, a madeira. Fernando Jaeger sempre se interessou pelo uso da madeira e pela arte dos mestres marceneiros. Pela técnica das pessoas que passam horas trabalhando nas minúcias de um encaixe, nos detalhes de uma cadeira, na finalização de uma peça. Um gosto que desenvolveu em mais de 30 anos de trabalho como designer e apurou durante as muitas visitas a pequenos fabricantes de móveis no interior do Brasil.

E ele rodou o país… Desde os primeiros empregos na área, Fernando percorreu vários estados em busca de matérias-primas e novos tipos de madeira, de fornecedores que pudessem executar seus projetos e produzi-los em escala. Encontrou muitos ao longo do caminho. Alguns trabalham com ele até hoje, mais de 26 anos depois, e o ajudaram a se enveredar em uma área que poucos designers haviam seguido até então: transformar o projeto de um móvel em um produto autoral, feito em série, de qualidade e a um preço acessível. Um produto produzido totalmente no Brasil, com o nosso DNA. Uma missão e tanto…

Quando viu uma plantação de eucalipto pela primeira vez, no início dos anos 1990, Fernando não acreditou no tamanho das árvores que se espalhavam por toda aquela grande área de reflorestamento. Elas eram do início do século, deviam ter quase noventa anos de idade, e se erguiam vários metros acima do solo até que as copas se encontrassem lá no alto, muito alto. O local era uma antiga fazenda no interior do Rio Grande do Sul, perto de sua cidade natal, e pertencia a um falecido médico “que deve ter sido uma das primeiras pessoas a plantar eucalipto para fins comerciais no Brasil”, relembra o designer.

Naquela época, Fernando havia acabado de abrir seu primeiro showroom, um sobradinho no bairro da Vila Pompeia, em São Paulo, e o eucalipto era plantado quase que exclusivamente para abastecer a indústria de papel, celulose e carvão. Fazer móveis, nem pensar. Quase ninguém queria trabalhar com aquela madeira resistente demais, dura de cortar, embora abundante, renovável, encontrada com fartura nas plantações de reflorestamento que se espalhavam pelo país. Mas Fernando queria.

Foi ali que nasceu a poltrona Ox, sua primeira peça feita de eucalipto, em linha até hoje e reconhecida pelo uso consciente da madeira. Lançada em 1991, a Ox  recebeu o prêmio Movesp/Ibama de melhor produto com madeiras alternativas no ano seguinte. Hoje, o eucalipto é uma das matérias-primas mais usadas pela indústria moveleira, presente principalmente nas estruturas de sofás e poltronas – e em tantos outros móveis que geralmente nem nos damos conta.

Da concepção à execução

Fernando pisou o chão de fábrica desde cedo e não demorou muito para descobrir seu caminho natural. Tomou gosto pela ideia de produzir em série e demonstrou grande capacidade para transformar projetos em produtos. Nos primeiros anos como designer fez muito mais do que croquis e desenhos técnicos. Na pequena indústria de móveis em que trabalhou no Rio de Janeiro, no início dos anos 1980, desenhou a disposição da linha de montagem no chão de fábrica, escolheu os ferramentais, especificou matérias-primas, visitou fornecedores pelo Brasil e desenvolveu as embalagens. Foi de ponta a ponta, da concepção à execução.

Essa visão abrangente do negócio foi aprimorada ao longo do tempo, mas ainda hoje Fernando desenha pensando nas pessoas e máquinas que trabalharão a matéria-prima. Nas ferramentas envolvidas na fabricação, na qualidade da peça, no preço final. Ele conhece bem todo esse processo. À sua maneira, descobriu e comprovou que é possível fazer móveis autorais e em larga escala, valorizando a produção 100% nacional, o trabalho dos fornecedores locais e a técnica dos marceneiros e artesãos.

Técnica que está presente nos detalhes de uma cadeira com encaixes de machetaria, no ranhurado da porta de um bufffet, no pezinho de um sofá. Coisas que dão expressão e identidade ao móvel, coisas simples que ele resgatou de suas viagens pelo Brasil. “Os marceneiros e cadeireiros, aquele cara que sabe fazer uma estrutura de madeira, um encaixe bem feito, estão deixando de existir. E eu faço exatamente o contrário. Eu resgato e valorizo esse profissional, porque seu trabalho agrega muito ao produto”.

É o princípio do ‘feito à mão’, também presente nos produtos e objetos de grifes famosas, das bolsas costuradas por artesãs super treinadas, igualmente produzidas em série, mas com muitas operações manuais no seu processo de fabricação. A diferença é que, no caso de Fernando, toda essa riqueza está aqui mesmo, no Brasil, nos fornecedores que ele garimpou e descobriu no interior do país.

Uma, duas, seis…

Então ele abriu uma loja, depois outra, depois outras. Atualmente são seis: quatro em São Paulo e duas no Rio de Janeiro. Um trabalho que tem por trás dez indústrias de móveis de pequeno e médio porte, de Rondônia ao Rio Grande do Sul, que cresceram junto com o designer e acompanharam uma trajetória que mistura talento e empreendedorismo.

Hoje, em seus três ateliês que trabalham sob encomenda e nas três lojas de pronta entrega, Fernando comercializa mais de 200 produtos. Também vende uma linha com 180 tipos de tecidos, muitos deles exclusivos e desenvolvidos com a ajuda do próprio designer. “Ah, o tecido… Esse é um trabalho interessante. Ele é a roupa do móvel. O jeito como é cortado e costurado, como veste a peça, ajuda a personalizar o produto”.

E assim como os tecidos, a linha de móveis está sempre se renovando. Algumas peças, no entanto, nunca saíram de produção e já estão há mais de duas décadas na casa das pessoas, acolhendo, dando conforto, guardando memórias e sonhos. Afinal, um móvel não é necessariamente para sempre, mas tem de ser pensado como se fosse, não é mesmo?

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